sexta-feira, 15 de março de 2013

Ah, a faculdade...

Final que eu queria pôr


Se Durkheim busca entender a sociedade moderna com base na divisão do trabalho, Marx o faz com base na economia. Weber (que, mesmo não incluindo no trabalho, vale a pena mencionar), por sua vez, com seu "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", demonstra que grandes mudanças estruturais podem vir da religião, inclusive mudanças na economia, e aposta na racionalidade como grande passo para a sociedade moderna. Talvez o Mercado Popular da Uruguaiana seja uma situação muito específica para compará-lo à sociedade (em sua forma meio-que-metafísica) e tenho certeza que minha estadia lá está muito longe de ser sequer imaginavelmente longa o suficiente para se supor qualquer coisa, mas o pouco que eu vislumbrei não correspondia realmente a nenhuma das propostas. Por mais que achemos ou nos forcemos a achar certas confluências entre teoria e realidade, o cru da questão é que não estamos tratando de proletariados (que nome terrivelmente genérico!) ou donos dos meios de produção ou de indivíduos com tarefas específicas e nem de processos de racionalização e ação social... não... estamos tratando de pessoas de carne e osso, com seus sonhos, desejos, ambições, frustrações e sofrimentos. Pessoas como eu e o Sr. E são elas que formam a sociedade, não importa qual seja, com suas dinâmicas muito pessoais. E são essas pessoas que deveriam estar no centro do estudo sociológico e não dentro de sua caixa de ferramentas. 

Final que acabei pondo...

Se Durkheim busca entender a sociedade moderna com base na divisão do trabalho, Marx o faz com base na economia. Possuem, portanto, pontos de vista extremamente diferentes sobre a sociedade. Para Durkheim, a sociedade é estática, quer dizer, tende ao equilíbrio, enquanto Marx enxerga os conflitos e, através de sua perspectiva histórica, constrói uma dinâmica dialética de cooperação e conflito entre homens. Claro que nenhum deles viveu o mundo de hoje e muito menos teve a chance de entrar no Mercado Popular da Uruguaiana, mas suas teorias vivem firmes e cá estou eu, tentando aplicá-las no Camelódromo, o que demonstra o quão recente ainda podem ser.

quarta-feira, 13 de março de 2013

I


'"Alguém recentemente postou por essas bandas facebookianas a definição de humildade, achei interessantíssimo e vou postar eu mesmo

humildade
hu.mil.da.de
sf (lat humilitate)
1 Virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza.
2 Modéstia.
3 Pobreza.
4 Demonstração de respeito, de submissão.
5 Inferioridade.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=humildade

Eu sei, como se ninguém soubesse o que é humildade... ainda mais alguém tendo postado isso por aqui recentemente.

Enfim... Complemento aqui com isso

fragilidade
fra.gi.li.da.de
sf (lat fragilitate)
1 Qualidade de frágil.
2 Fraqueza.
3 Delicadeza.

Cair é humilde, uma vez que demonstra a fragilidade, a fraqueza. Cair é ser rebaixado e, ao mesmo tempo, existe uma sociedade que glorifica tal atitude... Diabolicamente contraditório... Ser humilde é bom, mas também é digno de pena. O contrassenso das virtudes..."

II

Há na cadência certa doçura que nos incita à ajuda...
Esteja esta doçura na humildade (e fragilidade, por conseguinte) própria do ato de cair
Esteja ela em nós, no medo que transpassa o corpo ao refletir sua própria imagem caindo (hã?) => temos medo de cair (ah!)
De qualquer forma, é doce o amargor da cadência, assim como é amarga a fragilidade da doçura...
Que seja doce, então, mas que não (não?) caia.
Que caia então, mas que seja amargo.
As impregnações dos contrastantes evitam o próprio contraste! É como se sombra e objeto coexistissem no mesmo corpo, como se luz encontrasse a escuridão numa simbiose suicida, mas que não poderia ser (enquanto existir no mundo) de forma diferente...
É uma paixão apática, um furor indolente, uma fantasia pé-no-chão...
E assim se vive (...)

III

A grande antítese do maniqueísmo é a monotonia! Quando os contrastantes se encontram num processo de anulação; ácido e base viram água e tudo e nada viram...
?
Seu remédio: a Vida! 
A vida em suas infinitas nuances (que poder traz!), infinitas possibilidades, infinitas cores e tons e melodias e...
Ela dá contraste ao entendimento, não por meio de contrastantes, mas da infinitude de sentidos que podem tomar seus personagens. Não se opõem (de forma a formar vários, numa existência fragmentada e em conflito), nem se complementam (formando um, numa existência monótona), mas coexistem, todos em uma realidade, em infinitas camadas de complexidade que variarão pelo personagem e pela significação dada a ele e por ele.
A vida é um quadro dinâmico e em expansão, de infinitos traços, cores e observadores, estes que também fazem parte do próprio quadro.
A vida é um infinito em si mesmo, é a ação contemplativa da própria existência enquanto realidade. Na medida em que se age, se contempla e vice-versa, assim como na medida em que se existe, se vive (e a recíproca é verdadeira). 
E assim se vive(ndo)...

OBS para moi: A Natureza é a vida enquanto material tangível e não tangível, a vida tomando corpo e a consciência é a vida tomando mente enquanto parte da própria vida. (a desenvolver futuramente...)

Poema Nº 59, Versículo 7, Parágrafo 8º ou O Cotidiano Expresso de Forma Não Muito Clara Por Alguém Que Não Sabe Muito o Que Significa Cotidiano ou ainda (!) Há Dor


a dor é sintoma do tiro
o tiro é quadro da violência
a violência é o câncer da alma
a alma é a vernissage do eu
o eu é o lar do mundo
o mundo é causa da dor

a pré-paração que nos faz frear
é a pré-rendição ao tempo
a morte é a inércia,
a sede e a pressa
de um corpo ao relento

a dor

de viver

à dor

ador..

ador

de viver

a dor

ardor

segunda-feira, 11 de março de 2013

Bom... achei que tava na hora de mudar essa cleanagem toda... não mudei muita coisa, apenas botei um atrator de Lorenz no fundo, vocês devem reconhecer a parada do gráfico de demonstração do efeito borboleta... agora, sem entrar em detalhes, foi aqui que eu peguei a imagem http://www.stsci.edu/~lbradley/seminar/attractors.html

também botei a opção de visualizarem minha falta de seguidores... pra que eu não sei, na verdade... abreijos a todos

post fofis (ou Gestação)

Nove meses... foi o tempo que (já!) se passou. E agora, novamente, nove meses depois, cá estamos...
a chuva nos encharcando;
meus pés sentindo a calçada;
aquele beijo molhado - que romântico seria, lembra?
e foi;
e é...;
o vento nos juntando;
você e eu:
aquele rapaz desajeitado;
que continua desajeitado...
Nove meses... o tempo da nossa gestação...
de nossos desejos, de nossos planos, de nosso amor...
Nove meses... se me dissessem nove dias ou nove séculos, tanto faz.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Divagações


A vida é o universo pulsante

A morte é parte da vida, não é exterior a ela e muito menos é seu oposto. -> a morte deriva da vida ou é parte inerente dela?

A manifestação quanto à vida é possível? Pois a manifestação em si já é vida.

O universo pulsante não existe, a vida sim. A vida é o universo pulsante e a relação não é recíproca. Isto por que a vida é e sempre será prioritária em qualquer relação. Ex: A vida é um bocejo. A vida é uma árvore. A vida é uma estrela. Qualquer coisa que represente algo será vida, exceto se estiver isolada ao ponto de não se relacionar com absolutamente nada, nem ela mesma. Neste caso será Deus. A vida, como prioritária ao complexo sistema de relações se coloca acima de todas as coisas. A vida é, portanto Deus. No entanto, a vida não pode ser uma entidade, visto que por mais que prioritária, não pode representar a si mesma, ou seja, se enclausurar, se embarreirar, para começar porque as barreiras fariam parte da própria vida e, depois, pois sua extensão é tal que conceber seu fim é dar-lhe sobrevida. Entender algo fora da vida, isto é, do prioritário ao universo pulsante é simplesmente contraditório com a própria noção de prioridade sobre tudo. Não há externalidades e, portanto, não há entidade. A vida é, então, Deus em sua não-forma solta, inisolável (sim, estamos criando neologismos aqui, ou seja dando vida às palavras, ainda mais além, dando prioridade de existência a elas), mas irrelacionável pois não há com o que se relacionar.

Ok... resta a questão da morte enquanto parte constituinte da noção solta de vida ou derivada dela. Não se pode conceber a morte como "tudo que é externo à vida", para começar pelo simples fato de entendermos a morte, e, além disso, pela evidência óbvia do imenso - IMENSO - impacto que a morte tem sobre a vida. Se apenas considerarmos nós, seres humanos isolados conceitualmente para fins "metodológicos", acho que isso fica muito mais que claro. Não é concebível, portanto, que a morte se abstraia da vida. É, no entanto, parte constituinte fundamental da experiência de vida - tudo morre, cedo ou tarde, de animais e plantas, a estrelas e, provavelmente, átomos e as partículas mais elementares da constituição da realidade. É desta experiência de vida que decorre nossa morte, isto é, morremos porque vivemos ou morremos apesar de vivermos, sendo a morte uma face da vida? Talvez ambas as opções estejam erradas, posto que a vida não permite a ausência e a morte seja parte da experiência de viver (se constituinte ou decorrente dela, já não importa) e a morte não exista, portanto, enquanto ausência, concluo que a vida só pode ser absoluta e a morte efetiva - enquanto destituição de vida  (ou seja, perde sua capacidade de influenciar, perde sua relevância, sua característica a priori enquanto algo existente) - não pode existir, já que a vida é e será sempre relevante.

De uma forma mais resumida, posso falar, mais especificamente, que nenhum ser (e encaro ser aqui como qualquer coisa dentro do universo pulsante, qualquer coisa que tenha vida a priori, que seria "tudo", na verdade) deixa ter relevância em momento algum.

Sua presença enquanto vivo é o suficiente para deixar uma marca efetiva nos fluxos que subjazem a vida.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Porque sou um filho da puta preguiçoso

Diferente dos meus colegas, eu detesto luta social. Acho um porre, acho entediante, irritante, estressante, cansativo, tudo ao mesmo tempo. Tudo que eu queria é que essa merda terminasse. Óbvio que eu não posso falar isso no meu facebook, mas vou usar o blog (ora, porque não? ninguem le essa merda mesmo) pro desabafo. Não tenho saco pra ficar de tocaia esperando o batalhão de choque chegar para me dar porrada. Não tenho mesmo... "Oh mas então você é um reacionário/alienado/acomodado/blablabla. Foda-se. Na verdade me revolta sim essa merda toda mas não sinto prazer nenhum em lutar de volta. Tudo que eu queria era que não fosse preciso esse desgaste... A questão da luta social é que uma coisa é a luta em si, outra é o prazer de lutar. Esse último eu não tenho nem um pouco. Graças a deus, aliás! Não fico animado perante a possibilidade de receber gás de pimenta na cara ou bala de borracha no estômago (juro, tem gente que fica!). Porque as coisas não podem ser mais... diplomáticas?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Que mórbido é brincar com bonecos... Não são os bonecos a representação do corpo humano em seu estado de inércia - ou seja, morto - de forma a dar ao manipulador completo poder sobre o mesmo? Bonecos e cadáveres. Um mais leve que o outro. Um mais aceito que o outro. Mas o princípio não é o mesmo? Bom... bonecos cheiram melhor...


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Escrevera uma peça uma vez...

Se estava vazio, não era porque lhe faltasse alguma coisa mas, e o zelador sabia, porque lhe possibilitava tudo. Um palco vazio, dizia para si mesmo nos raros momentos em que se permitia filosofar, é como... e pensava um pouco... já usara "um livro", "uma fita de vídeo", "um botão de flor", entre outros, mas constantemente trocava a última metáfora por outra que fosse mais apropriada. Com frequência usava metáforas que já haviam sido trocadas, mas que lhe pareciam melhores no momento. Mas desta vez usou uma nova, uma que lhe pareceu mais apropriada do que qualquer outra que já tivesse usado... é como a aurora, e sorriu, cada dia é diferente, mas você sabe que vai acontecer e sabe que será lindo. Sim, esta estava boa... vinte e cinco anos... já varria o piso de madeira trabalhada daquele teatro havia vinte e cinco anos... quanta serpentina, purpurina, suor, papel, papelão, plásticos de todas as cores, panos, tecidos, e toda sorte de apetrecho teria varrido... recolhido... abrigado... sua casa estava cheia de quinquilharias de teatro. A velha reclamava, mas não podia convencer o zelador do contrário... era sua paixão e ela sabia disso, às vezes com admiração, às vezes com certo ciúme... Conhecera Shakespeare, Suassuna, Goethe, Chico Buarque, Nelson Rodrigues e tantos, tantos outros... o quanto rira, chorara, refletira nas sombras escuras dos bastidores reservados aos zeladores, aquele canto especial reservado, no escuro, entre as cortinas ou ao lado da saída... vira musicais, tragédias e comédias, recitais, óperas e performances... vira a vida sendo encenada e sendo vivida no palco e nas plateias. Lembrava-se do jovem tolo que entrara por aquelas portas aceitando o emprego como bico, suportando meses de berraria e cantoria enquanto esperava as luzes se apagarem para que começasse a limpar e organizar... Lembrava-se destes meses que não seriam recuperados, das peças que perdera a chance de assistir, de ouvir, de sentir, de viver... Recordava-se com carinho a Carmen que o seduzira, o Hamlet que o intrigara, mas, acima de tudo, o Fausto que o convidara para o mundo cênico. Entendia cada atuação como a encarnação viva do personagem, cada gesto como se parte de um contexto... Como Fausto, quis saber, mas sua fome se resumia ao mundo das artes cênicas, das personificações dos personagens, estes que não podem ter saído da cabeça de alguém, precisavam ter vida própria... Era uma aurora, sim senhor... e era linda a cada dia que passava, mesmo nos mais nublados... Entendera o palco vazia como um mundo a ser povoado, um contexto a ser preenchido, um espaço de infinitas possibilidades sempre disposto a voltar, após cada experimentação, a seu estado virgem e imaculado de esboço criativo infinito. E esta tarefa cabia ao zelador, trazer de volta a impecabilidade do palco, seu espírito de criação que não poderia ser outra coisa que não divino. Orgulhava-se do cargo... O protetor e cuidador da aurora... Parecia uma boa metáfora, de fato... De qualquer forma, não teria chance de substituí-la... O zelador morreu na manhã seguinte, devido a complicações no pulmão... Sua metáfora se tornara o epitáfio de seu túmulo, que está lá até hoje, no cemitério da cidade...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O mito da mediocridade

Este se baseia na ideia de superioridade individualista e prepotente que tanto insistimos em ter... Ora, mas fazer o quê? Se se traça uma linha de mediocridade, é batata que o traçador está acima dela. De cima, observando, julgando, julgando. Olha esses alienados!, dirá o traçador e seus discípulos. Estes que preferem  futebol a jornal, churrasco a leitura, carnaval a cultura (sim, leitor, eles ainda tem a pretensão de definir o que é e o que não é cultura!), cerveja a vinho! Quanto mal gosto, quanta falta de... classe? Ah, a classe!

A Classe!!!!!!!

Não, leitor, não vivo na ilusão de achar que não existe hierarquia na soc-ie-dade. Mas também não tenho pretensão nenhuma de nomeá-la. Se a classe está lá, não sou eu quem vai apontá-la, é o classificado! Mas Leitor, não sou de todo cético, é claro! Creio! Tenho fé também, acredite! Acredito na ambivalência da violência! Do poder! Da coerção! Acredito na igualdade "coesão = coerção", não há como fugir disso e, por fim, acredito na submissão ideológica. Aliás, isso é fato. Minha fé mesmo tá na sua forma consciente e coletiva, ah aí o bicho pega leitor! E como pega!

E eram deuses os... intelectuais! Só que não...
A força do povo, leitor! A camada medíocre da sociedade! Os medíocres que fazem as revoluções, e estas começam deles e não de outros. Não é de Marx que vem o marxismo, mas da vontade do povo! De seus anseios! O povo só abrigará a ideologia que o servir e aí está o problema! Não existe consenso naquilo que chamamos "vontade popular". Quando há, há exigência, e, então, revolução. O povo não quer comunismo, o povo quer viver bem e ser feliz. O povo não quer se submeter a uma ideologia, o povo quer carnaval, quer futebol, quer churrasco e não há nada de errado nisso! Não há mediocridade, leitor! Há o que há e taxar e qualificar a realidade é a forma mais elevada de prepotência que há no homem. Não há representação apenas do representante. Quem me elegeu a voz do povo? Não falo por ninguém aqui a não ser por mim! O povo faz o que quer porque ele sabe o que quer e o que é melhor para ele e não cabe a nós, no final das contas, achar que temos a verdade em nossas mãos, livros e manifestos, pois a verdade já fala por si.

Como verdadeiros revolucionários, não cabe a nós doutrinar, mas aprender e apoiar a vontade da maioria. A voz que tentamos ouvir com tantos folhetos e debates e discussões é a voz que se ouve da janela do carro, quando deixamos ela aberta, é a voz que se ouve no metrô, na praça, na praia.

Não! Não existe mediocridade! Existe o que existe e o que as pessoas querem enxergar disso. A partir daí, é por conta de cada um.

essas merdas hippongas new age dos inferno

como é estranho ter tão pouco para falar de tudo... a infinitude que me cerca, sua frágil e irreverente inércia perante as transformações (pois se tudo é, o que pode escapar ao seu alcance?) sua estabilidade mórbida equilibrada na agulha da vida, seu tenso tudo, movimento incessante em direção a si mesmo... é tudo tão vago, e é tão pequena a consistência de minhas palavras... apenas olhe ao redor.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Mórbida flor,
eis que desabrocha sem vontade.
A primavera não foi tão gentil com tuas pétalas...
Deverias ter padecido no inverno,
enquanto ainda botão...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tentativa de Suicídio

Assobiava Raul Seixas enquanto saía da barca, já bem atrasado para a faculdade. Na multidão de gente, uma se destacava... era uma mulher, por volta dos seus quarenta e tantos anos, branca, cabelos castanhos curtos, meio gorda... Usava um vestido florido que terminava no joelho, permitindo ver suas pernas não depiladas. A mulher se encontrava na grade que separava a plataforma de embarque do mar sujo da Baía de Guanabara, com uma perna para dentro da plataforma e outra para fora. "Ela vai pular", pensei. E pulou... a mulher terminou de escalar a grade com muita calma, com movimentos cuidadosos, se posicionou na beira da plataforma e se jogou no mar, sem retornar.
- Ela caiu! - alguém berrou.
- Ela se jogou... - eu sussurrei.
- Ela se jogou! - berraram.
- Ah bem que ela tinha deixado o rádio! - uma mulher disse.
- Alguém ajuda ela! Alguém chama ajuda!
- Deixa ela lá! Ela que se jogou!
- Maluca! - disse alguém entre risos.
A silhueta da mulher apareceu novamente, mas seu rosto não saiu da água. Um homem se jogou para ajudá-la, um segurança pedia ajuda pelo rádio. Logo uma multidão se formava para ver o resgate. Alguém me empurrou, eu andei e vi ela sendo tirada de lá. Fui embora... não acho que tenha dado tempo dela se afogar, mas não fiquei para saber... Estava confuso e me irritava as pessoas vendo a situação com graça... Suponho que todos tenham o direito de se expressar como quiserem, mas me irritava.

O que se passava pela minha cabeça, a partir do momento em que vi aquela mulher era: "Eu devo ajudá-la..." Mas eu nem estava disposto a ajudá-la e nem sequer queria ajudá-la... Para ser sincero, não sabia nem se deveria ajudá-la... O episódio foi um grande confronto para mim... Aquela mulher, quer sofresse de depressão ou alguma doença psicológica/psiquiátrica, quer não, aquela mulher esfregou na minha cara que talvez a vida não valha a pena... Fiquei pensando no que levaria uma pessoa a despir-se de sua vida, a coisa que deveria ser mais cara para ela, a única coisa que ela de fato tem e é dela... Não consigo sequer imaginar a resposta... ainda assim, ela o fez, ela se jogou. Um confronto... ela parecia tão calma, tão pensado aquele ato... Mais tarde uma garota falou "ela se jogou para chamar atenção". Tenho certeza que não foi isso, não pode ter sido... ela não subiu... talvez tenha sido um ataque ou algo assim... eu não sei como funcionam psicopatologias ou mesmo neuropatologias... tanto faz... a questão que ficou é: Será que a vida realmente vale a pena?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Errar é Humano 1 e 2

Errar é humano
e pelas estradas do mundo, sou humano
e pelas vidas que vivi
pelas mortes que sofri
e pelas sortes que encontrei
e pelos destinos que jamais alcancei,
sou humano.

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Errar é humano;
Perdoar é prepotente.
‎" Entrou um homem de idade indeterminada, fisionomia indeterminada, naquela fase da vida em que é difícil adivinhar a idade; não era bonito nem feio, não era alto nem baixo, não era louro nem moreno. A natureza não lhe dera nenhum traço marcante, notável, nem ruim, nem bom. Muitos o chamavam de Ivan Ivánitch, outros, de Ivan Vassílievitch, e outros, ainda, de Ivan Mikháilitch.
Quanto ao sobrenome da família, também havia diferenças: uns diziam que era Ivánov, outros o chamavam de Vassíliev ou Andréiev, e outros ainda achavam que era Alekséiev.
Um desconhecido que o visse pela primeira vez e escutasse seu nome o esqueceria logo em seguida, e esqueceria também seu rosto; o que ele falava nem se percebia. Sua presença nada acrescentava à sociedade, assim como sua ausência nada retirava dela. Sua mente não possuía senso de humor, originalidade, nem outros traços peculiares, a exemplo do corpo.
Talvez ele soubesse pelo menos contar tudo o que via e escutava e com isso despertar o interesse dos outros; no entanto, não ia a parte alguma: como nascera em Petersburgo, não viajava a lugar nenhum; em consequência, via e escutava aquilo que os outros também sabiam.
Seria simpático aquele homem? Será que amava, odiava, sofria? Na certa devia amar e não amar, sofrer, porque afinal ninguém está a salvo disso. Mas, sabe-se lá como, ele achou um jeito de amar todo mundo. Existem pessoas assim, em quem os outros, por mais que se esforcem, não conseguem despertar nenhum espírito de animosidade, de vingança etc. Não importa o que façam com tais pessoas, elas sempre se mostram amáveis. De resto, é preciso lhes fazer justiça e reconhecer que seu amor, se o dividirmos em graus, jamais alcança o nível do ardor. Embora digam que tais pessoas amam a todos e por isso são boas, no fundo não amam ninguém e são boas apenas porque não são más.
Se diante de um homem assim alguém dá esmola a um mendigo, ele lhe joga também sua moedinha, e se alguém xinga, expulsa ou faz algo atrevido com outras pessoas, ele age da mesma forma. Não se pode dizer que é rico, porque é antes pobre do que rico; mas positivamente tampouco se pode dizer que é pobre, porque na verdade há muita gente mais pobre do que ele.
Tem uma espécie de renda de trezentos rublos por ano e, além disso, tem um cargo irrelevante no serviço público e ganha um salário irrelevante: não passa necessidades, não toma empréstimos de ninguém e, menos ainda, não passa pela cabeça de ninguém lhe pedir dinheiro emprestado.
No seu emprego, não tem nenhuma ocupação especial e constante, porque os colegas e os chefes não conseguem de maneira nenhuma saber o que ele faz pior e o que faz melhor, de tal modo que é impossível determinar para o que ele é especialmente capaz. Se lhe dão isso ou aquilo para fazer, ele o faz de tal modo que o chefe sempre se vê em apuros, sem saber como avaliar seu trabalho; examina, examina, lê, relê, e só consegue dizer: 'Deixe para lá, depois examino melhor... Sim, está quase como deve ser'.
Nunca passa pelo seu rosto o menor traço de preocupação, de fantasia, que demonstre que, naquele minuto, ele está conversando consigo mesmo, e ele nunca é visto dirigindo um olhar cobiçoso a algum objeto exterior, indicativo de que deseja mantê-lo sob sua alçada.
Um conhecido o encontra na rua: 'Aonde vai?', pergunta. 'Pois é, estou indo para o trabalho, ou para as lojas, ou visitar alguém.' E o outro diz: 'É melhor vir comigo ao correio, ou então vamos juntos ao alfaiate, ou vamos dar um passeio'. E ele o acompanha, vai ao alfaiate, ao correio e passeia na direção oposta à que antes estava indo.
É difícil que alguém, exceto sua mãe, tenha percebido seu aparecimento no mundo, muitos poucos reparam nele no decorrer da vida, mas seguramente ninguém vai notar como ele desaparecerá do mundo; ninguém vai perguntar por ele, nem vai lamentá-lo, e ninguém vai se alegrar com sua morte. Ele não tem inimigos nem amigos, mas seus conhecidos são numerosos. Talvez só o cortejo fúnebre atraia atenção de um passante, que renderá homenagem àquele rosto indeterminado, pela primeira vez objeto de honra de uma reverência em que se abaixa bastante a cabeça; talvez até algum outro curioso venha correndo para a frente do cortejo a fim de saber qual é o nome do falecido, para logo depois esquecê-lo.
Pois esse Alekséiev, Vassíliev, Andréiev ou como preferirem é uma espécie de alusão incompleta e impessoal à matéria humana, uma reverberação surda de seu vago reflexo."

Retirado de Oblómov, de Ivan Gontcharóv

domingo, 6 de janeiro de 2013

Não, não desejava morrer, desejava apenas observar a morte de perto. Era assim que se curava da impotência, afinal e, raciocinara, se já era prazeroso assistir à morte alheia, que dirá a própria! Imagine só! a minha carne sangrando feito bala, os ossos se partindo com barulho e as veias se rompendo, o sangue espirrando para fora. Ah sim, a dor!! Que maravilha! Podia sentir-se morto, ah que delícia, qual não seria o tamanho do orgasmo quando seu cérebro estourasse, seus olhos caíssem para fora de seu crânio, o doce amassado da vida diante de mim, eu! A vida não presta afinal de contas! Homens? Mulheres? Nada disso presta. Não sou nenhum, não senhor, sou algo além! Muito além! Se agora rio é porque sei verdadeiramente o que é felicidade! Não! Nenhum de vocês jamais encontrarão, mas eu sei! Eu sinto! Eu tenho!


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Eu te perdoo. Te perdoo porque sei que o que fez é culpa minha. Não te dei atenção suficiente, não te amei o suficiente, não te fiz o suficiente, não te dei o suficiente, não sangrei o suficiente, não suicidei o suficiente, não sofri o suficiente, não doí o suficiente, não morri. Mas não se preocupe, amor, tudo isso vai mudar.


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Ah, a mediocridade! A mediocridade é um mito! Depois continuo...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

o toque além do tato que eu tanto necessito... o sentir além dos sentido, o estar e ser eu no mundo. o corpo que me media não é mais necessário, sou eu puro e nada mais. quero SÓ ser, SÓ estar. quero me livrar desse caixão de carne, ossos, sangue, pelos, excrementos, de sensações traduzidas, digitais, de cores filtradas, de formas borradas... ah, o querer... o poder é bem diferente... o que eu quero, sei bem que não existe... mas mesmo assim, tem um ardor em meu peito que não me deixa desejar outra coisa...
comecei o ano passado com perspectiva. ao longo do ano, esta mudou diversas vezes e pelos mais diferentes motivos: pessoas que eu conheci, as eleições, minha efêmera e quase nula participação no processo de reivindicação de direitos dos índios da aldeia maracanã, etc, etc... e, começo este, no entanto, sem nenhuma. para ser mais direto, não sinto sequer um "começo" propriamente dito. talvez seja o efeito das aulas de verão causadas pela greve, talvez seja outra coisa qualquer, enfim, eu não sei mesmo, só sei que esse ano o ritual não me atinge. vi os fogos grandiosos da praia de copacabana sem realmente entender porque aquele fuzuê todo. virou o mês e cá estamos... cá estou, melhor dizendo, sem perspectiva. minha única certeza é a maldita prova de sociologia quarta que vem. não digo que ano passado não tenha sido bom para mim, não me entendam mal, foi um dos anos mais incríveis da minha vida, a soma pode ter certeza que foi positiva. mas, acabou-se com um eu inseguro de seu curso, de suas escolhas, de seus posicionamentos, de sua eficiência e, mais importante, de sua competência. creio que não interesse bem a vocês tudo isso e não os culpo: é um porre, mesmo! na verdade, acho que não interessa nem bem a mim! mas escrevo mesmo assim, porque é isso que eu vinha fazendo e era isso que me deixava feliz, essa coisa que eu parei... escrever pra ninguém, só por escrever... e, sendo bem franco, estou feliz de fazer isso neste momento. feliz 2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Rafaela

A névoa artificial, a música pop-eletrônica, os olhares ansiosos por seu corpo, ansiosos por um erro seu... conhecia bem tudo aquilo, conhecia a correria da troca de roupas, conhecia os esporros dos estilistas... Já não era sua primeira passarela... Lembrava-se de sua infância; como sua mãe, que nunca pôde ser modelo porque engravidara, contava do glamour e da beleza da profissão. As duas montavam passarelas de lençóis por onde a pequena Rafaela desfilava com suas roupas e arranjos improvisados. Tudo era uma festa, onde uma cobrinha de pelúcia virava uma echarpe de luxo. Mamãe aplaudia de pé a desenvoltura da filha, não se privando de consertar quaisquer erros que cometesse ou de ensinar os modos adequados de se andar. Rafaela sorriria se pudesse, se não estivesse sendo vigiada por algumas centenas de olhos prontos para ver o menor deslize, o menor traço que fugisse da natureza morta de um manequim. Rafaela entendia sua função, era ser objeto de desejo, mas não menos objeto. Era seduzir com a apatia da mosca morta que representava. Mas não foi sempre assim... Enquanto as luzes da fama pareciam longe, um sonho a conquistar, Rafaela via na profissão de modelo tudo aquilo que desejava para sua vida. Via na passarela seu habitat, o lugar onde se sentiria mais a vontade e poderia melhor se expressar. Foi aos treze anos que assinou seu primeiro contrato. Também foi aos treze que conheceu Geraldo Bergmann, seu agente. Ainda naquele ano fez seus primeiros desfiles e sua mãe, sempre orgulhosa, sentava-se sempre na primeira fileira. Como hoje... os passos, os ossos quase expostos a ranger, os dentes a cerrar, os batimentos, tudo ecoava em sua mente mais alto que a música do desfile. Lembra-se de como era fácil ser modelo aos treze anos, ainda possuía a promessa do glamour... aquele glamour ofuscante que tanto desejara e por tanto tempo... agora que o tinha... percebia que não era tão maravilhoso assim... Entre privações, reclusões e assédios, Rafaela desejava o que não podia: mudar de vida. Fora criada nessa vida e agora não haveria escape. Lembrava-se de quando começou a ver-se presa... foi aos quinze anos... também foi quando perdeu a virgindade. Foi Geraldo Bergmann, seu agente, quem a tirou. Rafaela não queria, muito menos com ele, aquele homem feio, em seus cinquenta e tantos anos, que fedia a colonia e cigarro. Não...Não queria... mas não teve escolha. Bergmann a ameaçou tirar-lhe sua carreira, seu sonho, tudo o que tinha... Perdeu, assim, a inocência, e foi carregada para dentro do fazer o que for preciso pela carreira. Emagreceu, parou de comer decentemente, vomitou algumas vezes por semana, entrou no mundo das drogas pesadas para suportar - e porque não havia outra opção. Nunca teve chance de amar, de viver... Percebia agora, na maturidade dos seus trinta anos, o quanto deixara para trás pelo glamour... O glamour que só desejava longe agora... Olhou pelo canto do olho para sua mãe, orgulhosa como sempre ao ver a filha desfilando. Os olhos encheram-se de lágrimas, um misto de dor, raiva e pena. Segurou. Não poderia chorar ali, agora não. Deveria fazer como fazia normalmente, deveria esperar acabar o desfile, deveria chorar sozinha no hotel, com a carreira de cocaína pronta para ser cheirada. Deveria, mas não conseguiu. Desabou na passarela e caiu em prantos. As lágrimas tinham um sabor acridoce... Estava tudo acabado agora.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lá fora vejo toda sorte de escritores medíocres, uns fazendo sucesso, outros desconhecidos, mas todos reunidos, ainda que inconscientemente, em sua imensa trupe tragicômica a girar pelo mundo assombrando aqueles que procuram algo nas palavras além da rasa comunicação verbal que supõe-se delas... Vejo tantos quanto me dá medo de existir desses por aqui dentro, gados marcados a contragosto com a triste insígnia da mediocridade... Quão triste não é isso? Ser posto a força num grupo que despreza?