domingo, 27 de janeiro de 2013

Mórbida flor,
eis que desabrocha sem vontade.
A primavera não foi tão gentil com tuas pétalas...
Deverias ter padecido no inverno,
enquanto ainda botão...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tentativa de Suicídio

Assobiava Raul Seixas enquanto saía da barca, já bem atrasado para a faculdade. Na multidão de gente, uma se destacava... era uma mulher, por volta dos seus quarenta e tantos anos, branca, cabelos castanhos curtos, meio gorda... Usava um vestido florido que terminava no joelho, permitindo ver suas pernas não depiladas. A mulher se encontrava na grade que separava a plataforma de embarque do mar sujo da Baía de Guanabara, com uma perna para dentro da plataforma e outra para fora. "Ela vai pular", pensei. E pulou... a mulher terminou de escalar a grade com muita calma, com movimentos cuidadosos, se posicionou na beira da plataforma e se jogou no mar, sem retornar.
- Ela caiu! - alguém berrou.
- Ela se jogou... - eu sussurrei.
- Ela se jogou! - berraram.
- Ah bem que ela tinha deixado o rádio! - uma mulher disse.
- Alguém ajuda ela! Alguém chama ajuda!
- Deixa ela lá! Ela que se jogou!
- Maluca! - disse alguém entre risos.
A silhueta da mulher apareceu novamente, mas seu rosto não saiu da água. Um homem se jogou para ajudá-la, um segurança pedia ajuda pelo rádio. Logo uma multidão se formava para ver o resgate. Alguém me empurrou, eu andei e vi ela sendo tirada de lá. Fui embora... não acho que tenha dado tempo dela se afogar, mas não fiquei para saber... Estava confuso e me irritava as pessoas vendo a situação com graça... Suponho que todos tenham o direito de se expressar como quiserem, mas me irritava.

O que se passava pela minha cabeça, a partir do momento em que vi aquela mulher era: "Eu devo ajudá-la..." Mas eu nem estava disposto a ajudá-la e nem sequer queria ajudá-la... Para ser sincero, não sabia nem se deveria ajudá-la... O episódio foi um grande confronto para mim... Aquela mulher, quer sofresse de depressão ou alguma doença psicológica/psiquiátrica, quer não, aquela mulher esfregou na minha cara que talvez a vida não valha a pena... Fiquei pensando no que levaria uma pessoa a despir-se de sua vida, a coisa que deveria ser mais cara para ela, a única coisa que ela de fato tem e é dela... Não consigo sequer imaginar a resposta... ainda assim, ela o fez, ela se jogou. Um confronto... ela parecia tão calma, tão pensado aquele ato... Mais tarde uma garota falou "ela se jogou para chamar atenção". Tenho certeza que não foi isso, não pode ter sido... ela não subiu... talvez tenha sido um ataque ou algo assim... eu não sei como funcionam psicopatologias ou mesmo neuropatologias... tanto faz... a questão que ficou é: Será que a vida realmente vale a pena?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Errar é Humano 1 e 2

Errar é humano
e pelas estradas do mundo, sou humano
e pelas vidas que vivi
pelas mortes que sofri
e pelas sortes que encontrei
e pelos destinos que jamais alcancei,
sou humano.

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Errar é humano;
Perdoar é prepotente.
‎" Entrou um homem de idade indeterminada, fisionomia indeterminada, naquela fase da vida em que é difícil adivinhar a idade; não era bonito nem feio, não era alto nem baixo, não era louro nem moreno. A natureza não lhe dera nenhum traço marcante, notável, nem ruim, nem bom. Muitos o chamavam de Ivan Ivánitch, outros, de Ivan Vassílievitch, e outros, ainda, de Ivan Mikháilitch.
Quanto ao sobrenome da família, também havia diferenças: uns diziam que era Ivánov, outros o chamavam de Vassíliev ou Andréiev, e outros ainda achavam que era Alekséiev.
Um desconhecido que o visse pela primeira vez e escutasse seu nome o esqueceria logo em seguida, e esqueceria também seu rosto; o que ele falava nem se percebia. Sua presença nada acrescentava à sociedade, assim como sua ausência nada retirava dela. Sua mente não possuía senso de humor, originalidade, nem outros traços peculiares, a exemplo do corpo.
Talvez ele soubesse pelo menos contar tudo o que via e escutava e com isso despertar o interesse dos outros; no entanto, não ia a parte alguma: como nascera em Petersburgo, não viajava a lugar nenhum; em consequência, via e escutava aquilo que os outros também sabiam.
Seria simpático aquele homem? Será que amava, odiava, sofria? Na certa devia amar e não amar, sofrer, porque afinal ninguém está a salvo disso. Mas, sabe-se lá como, ele achou um jeito de amar todo mundo. Existem pessoas assim, em quem os outros, por mais que se esforcem, não conseguem despertar nenhum espírito de animosidade, de vingança etc. Não importa o que façam com tais pessoas, elas sempre se mostram amáveis. De resto, é preciso lhes fazer justiça e reconhecer que seu amor, se o dividirmos em graus, jamais alcança o nível do ardor. Embora digam que tais pessoas amam a todos e por isso são boas, no fundo não amam ninguém e são boas apenas porque não são más.
Se diante de um homem assim alguém dá esmola a um mendigo, ele lhe joga também sua moedinha, e se alguém xinga, expulsa ou faz algo atrevido com outras pessoas, ele age da mesma forma. Não se pode dizer que é rico, porque é antes pobre do que rico; mas positivamente tampouco se pode dizer que é pobre, porque na verdade há muita gente mais pobre do que ele.
Tem uma espécie de renda de trezentos rublos por ano e, além disso, tem um cargo irrelevante no serviço público e ganha um salário irrelevante: não passa necessidades, não toma empréstimos de ninguém e, menos ainda, não passa pela cabeça de ninguém lhe pedir dinheiro emprestado.
No seu emprego, não tem nenhuma ocupação especial e constante, porque os colegas e os chefes não conseguem de maneira nenhuma saber o que ele faz pior e o que faz melhor, de tal modo que é impossível determinar para o que ele é especialmente capaz. Se lhe dão isso ou aquilo para fazer, ele o faz de tal modo que o chefe sempre se vê em apuros, sem saber como avaliar seu trabalho; examina, examina, lê, relê, e só consegue dizer: 'Deixe para lá, depois examino melhor... Sim, está quase como deve ser'.
Nunca passa pelo seu rosto o menor traço de preocupação, de fantasia, que demonstre que, naquele minuto, ele está conversando consigo mesmo, e ele nunca é visto dirigindo um olhar cobiçoso a algum objeto exterior, indicativo de que deseja mantê-lo sob sua alçada.
Um conhecido o encontra na rua: 'Aonde vai?', pergunta. 'Pois é, estou indo para o trabalho, ou para as lojas, ou visitar alguém.' E o outro diz: 'É melhor vir comigo ao correio, ou então vamos juntos ao alfaiate, ou vamos dar um passeio'. E ele o acompanha, vai ao alfaiate, ao correio e passeia na direção oposta à que antes estava indo.
É difícil que alguém, exceto sua mãe, tenha percebido seu aparecimento no mundo, muitos poucos reparam nele no decorrer da vida, mas seguramente ninguém vai notar como ele desaparecerá do mundo; ninguém vai perguntar por ele, nem vai lamentá-lo, e ninguém vai se alegrar com sua morte. Ele não tem inimigos nem amigos, mas seus conhecidos são numerosos. Talvez só o cortejo fúnebre atraia atenção de um passante, que renderá homenagem àquele rosto indeterminado, pela primeira vez objeto de honra de uma reverência em que se abaixa bastante a cabeça; talvez até algum outro curioso venha correndo para a frente do cortejo a fim de saber qual é o nome do falecido, para logo depois esquecê-lo.
Pois esse Alekséiev, Vassíliev, Andréiev ou como preferirem é uma espécie de alusão incompleta e impessoal à matéria humana, uma reverberação surda de seu vago reflexo."

Retirado de Oblómov, de Ivan Gontcharóv

domingo, 6 de janeiro de 2013

Não, não desejava morrer, desejava apenas observar a morte de perto. Era assim que se curava da impotência, afinal e, raciocinara, se já era prazeroso assistir à morte alheia, que dirá a própria! Imagine só! a minha carne sangrando feito bala, os ossos se partindo com barulho e as veias se rompendo, o sangue espirrando para fora. Ah sim, a dor!! Que maravilha! Podia sentir-se morto, ah que delícia, qual não seria o tamanho do orgasmo quando seu cérebro estourasse, seus olhos caíssem para fora de seu crânio, o doce amassado da vida diante de mim, eu! A vida não presta afinal de contas! Homens? Mulheres? Nada disso presta. Não sou nenhum, não senhor, sou algo além! Muito além! Se agora rio é porque sei verdadeiramente o que é felicidade! Não! Nenhum de vocês jamais encontrarão, mas eu sei! Eu sinto! Eu tenho!


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Eu te perdoo. Te perdoo porque sei que o que fez é culpa minha. Não te dei atenção suficiente, não te amei o suficiente, não te fiz o suficiente, não te dei o suficiente, não sangrei o suficiente, não suicidei o suficiente, não sofri o suficiente, não doí o suficiente, não morri. Mas não se preocupe, amor, tudo isso vai mudar.


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Ah, a mediocridade! A mediocridade é um mito! Depois continuo...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

o toque além do tato que eu tanto necessito... o sentir além dos sentido, o estar e ser eu no mundo. o corpo que me media não é mais necessário, sou eu puro e nada mais. quero SÓ ser, SÓ estar. quero me livrar desse caixão de carne, ossos, sangue, pelos, excrementos, de sensações traduzidas, digitais, de cores filtradas, de formas borradas... ah, o querer... o poder é bem diferente... o que eu quero, sei bem que não existe... mas mesmo assim, tem um ardor em meu peito que não me deixa desejar outra coisa...
comecei o ano passado com perspectiva. ao longo do ano, esta mudou diversas vezes e pelos mais diferentes motivos: pessoas que eu conheci, as eleições, minha efêmera e quase nula participação no processo de reivindicação de direitos dos índios da aldeia maracanã, etc, etc... e, começo este, no entanto, sem nenhuma. para ser mais direto, não sinto sequer um "começo" propriamente dito. talvez seja o efeito das aulas de verão causadas pela greve, talvez seja outra coisa qualquer, enfim, eu não sei mesmo, só sei que esse ano o ritual não me atinge. vi os fogos grandiosos da praia de copacabana sem realmente entender porque aquele fuzuê todo. virou o mês e cá estamos... cá estou, melhor dizendo, sem perspectiva. minha única certeza é a maldita prova de sociologia quarta que vem. não digo que ano passado não tenha sido bom para mim, não me entendam mal, foi um dos anos mais incríveis da minha vida, a soma pode ter certeza que foi positiva. mas, acabou-se com um eu inseguro de seu curso, de suas escolhas, de seus posicionamentos, de sua eficiência e, mais importante, de sua competência. creio que não interesse bem a vocês tudo isso e não os culpo: é um porre, mesmo! na verdade, acho que não interessa nem bem a mim! mas escrevo mesmo assim, porque é isso que eu vinha fazendo e era isso que me deixava feliz, essa coisa que eu parei... escrever pra ninguém, só por escrever... e, sendo bem franco, estou feliz de fazer isso neste momento. feliz 2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Rafaela

A névoa artificial, a música pop-eletrônica, os olhares ansiosos por seu corpo, ansiosos por um erro seu... conhecia bem tudo aquilo, conhecia a correria da troca de roupas, conhecia os esporros dos estilistas... Já não era sua primeira passarela... Lembrava-se de sua infância; como sua mãe, que nunca pôde ser modelo porque engravidara, contava do glamour e da beleza da profissão. As duas montavam passarelas de lençóis por onde a pequena Rafaela desfilava com suas roupas e arranjos improvisados. Tudo era uma festa, onde uma cobrinha de pelúcia virava uma echarpe de luxo. Mamãe aplaudia de pé a desenvoltura da filha, não se privando de consertar quaisquer erros que cometesse ou de ensinar os modos adequados de se andar. Rafaela sorriria se pudesse, se não estivesse sendo vigiada por algumas centenas de olhos prontos para ver o menor deslize, o menor traço que fugisse da natureza morta de um manequim. Rafaela entendia sua função, era ser objeto de desejo, mas não menos objeto. Era seduzir com a apatia da mosca morta que representava. Mas não foi sempre assim... Enquanto as luzes da fama pareciam longe, um sonho a conquistar, Rafaela via na profissão de modelo tudo aquilo que desejava para sua vida. Via na passarela seu habitat, o lugar onde se sentiria mais a vontade e poderia melhor se expressar. Foi aos treze anos que assinou seu primeiro contrato. Também foi aos treze que conheceu Geraldo Bergmann, seu agente. Ainda naquele ano fez seus primeiros desfiles e sua mãe, sempre orgulhosa, sentava-se sempre na primeira fileira. Como hoje... os passos, os ossos quase expostos a ranger, os dentes a cerrar, os batimentos, tudo ecoava em sua mente mais alto que a música do desfile. Lembra-se de como era fácil ser modelo aos treze anos, ainda possuía a promessa do glamour... aquele glamour ofuscante que tanto desejara e por tanto tempo... agora que o tinha... percebia que não era tão maravilhoso assim... Entre privações, reclusões e assédios, Rafaela desejava o que não podia: mudar de vida. Fora criada nessa vida e agora não haveria escape. Lembrava-se de quando começou a ver-se presa... foi aos quinze anos... também foi quando perdeu a virgindade. Foi Geraldo Bergmann, seu agente, quem a tirou. Rafaela não queria, muito menos com ele, aquele homem feio, em seus cinquenta e tantos anos, que fedia a colonia e cigarro. Não...Não queria... mas não teve escolha. Bergmann a ameaçou tirar-lhe sua carreira, seu sonho, tudo o que tinha... Perdeu, assim, a inocência, e foi carregada para dentro do fazer o que for preciso pela carreira. Emagreceu, parou de comer decentemente, vomitou algumas vezes por semana, entrou no mundo das drogas pesadas para suportar - e porque não havia outra opção. Nunca teve chance de amar, de viver... Percebia agora, na maturidade dos seus trinta anos, o quanto deixara para trás pelo glamour... O glamour que só desejava longe agora... Olhou pelo canto do olho para sua mãe, orgulhosa como sempre ao ver a filha desfilando. Os olhos encheram-se de lágrimas, um misto de dor, raiva e pena. Segurou. Não poderia chorar ali, agora não. Deveria fazer como fazia normalmente, deveria esperar acabar o desfile, deveria chorar sozinha no hotel, com a carreira de cocaína pronta para ser cheirada. Deveria, mas não conseguiu. Desabou na passarela e caiu em prantos. As lágrimas tinham um sabor acridoce... Estava tudo acabado agora.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lá fora vejo toda sorte de escritores medíocres, uns fazendo sucesso, outros desconhecidos, mas todos reunidos, ainda que inconscientemente, em sua imensa trupe tragicômica a girar pelo mundo assombrando aqueles que procuram algo nas palavras além da rasa comunicação verbal que supõe-se delas... Vejo tantos quanto me dá medo de existir desses por aqui dentro, gados marcados a contragosto com a triste insígnia da mediocridade... Quão triste não é isso? Ser posto a força num grupo que despreza?

Quero fumar um emaranhado de qualquer coisa que dê para emaranhar, respirar aquele ar denso, escuro que me faz ver melhor. Ar seco, áspero... Bebo por osmose o sangue daqueles que me cercam, que morrem porque não há nada mais a fazer, morrem por inércia, que seja forçada, mas inércia...

Quero doer toda dor que não me pertence, numa pretensão imensa de tomar os fardos alheios, de me sentir melhor comigo mesmo, com minha consciência... Aquele ar que me dói os pulmões, o quanto esperei por esta dor...

Quero sentir tudo, apreender o Universo! Quero amar a todos, quero ser! Quero a dor dos outros para substituir a minha, a minha... a minha...

Quero preencher a solidão com falsas esperanças...
Pensar "porque diabos alguém me leria?" é o suficiente para me fazer parar de escrever... Ao que parece não é preciso muito para me desestimular... Enfim... Medíocridade... Taí uma coisa que me persegue. Isso e a impotência, a boa e velha. Escrita medíocre e broxa, é a minha... Não me estenderei. É isso.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O que fazer quando suas crenças são destruídas? Para onde ir? A quê recorrer? Quando se molda um modo de agir, de enxergar, de viver, enfim, em cima de uma estrutura que se arruína, que fazer? Viver em ruínas, mesmo assim, que se danem as evidências? Não, isso não dá... Me pergunto, no entanto, se eu fui ingênuo demais, se eu não me seguei a realidade, se minha estrutura já estava em ruínas bem antes de eu perceber... Cavando com pá em pedra dura, cortando árvore com canivete, o trabalho é intenso, é verdade, mas não se chega a lugar nenhum.

Pelo visto a solução é a violência.

Ah, a violência, é verdade.

Ela, de quem eu fugi e só agora entendo a importância que tem... Ela, que conduz o mundo, não é verdade? Pois bem, a violência... Sou covarde...Por mais que entenda agora sua fundamentação, sua necessidade, me recuso a segui-la, a usá-la...

Me retiro em derrota, se é pela violência a vitória, afundo-me em minhas ruínas e não quero mais saber. Prefiro a solitária derrota, mas que seja pacífica, do que a derrota a custa do ferimento alheio. Que eu, que me proponho a lutar, me fira, sim, mas não aqueles a quem eu me oponho, eles nada tem a ver com minha revolta, eles nada tem a ver com minha indignação, eu não luto contra eles, eu luto por mim e luto pelo povo... Ou pelo menos era o que eu acreditava... O povo... Que é esse ser abstrato, aparentemente homogêneo e indefeso, mas que é, mais que nada, indefinível e indomável?
É mesmo?
Lá vou eu com minha romantização do povo... Se já disse que é indefinível, porque insisto em defini-lo? Talvez esteja errado novamente, talvez o povo seja aquela massa que tanto nos falam.

Massa indistinguível entre si, mas bem separada do resto, que são eles que a classificam. Ninguém nunca se diz parte da massa...

Nem povo, nem ninguém, nem nada... Não represento a outro que não seja a mim, vejo isso agora com total clareza. Não luto por outro que não seja por mim... E se não vale a pena, se não vale a pena lutar por mim... Não luto. Não luto por nada. Deixo-os com a violência, deixo-me em paz.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

JAZZ AQUI O CONCEITO





Fernandes

Fernandes riu suave... um sorriso melancólico completava aquela risada nostálgica. Enquanto segurava o livro, enquanto lia a dedicatória, enquanto o turbilhão de memórias lhe agitava a velha mente cansada... Éramos tão jovens... Achávamos que duraria para sempre... "a melhor coisa que já me aconteceu" não era mentira, naquela época não era... Como amava ela... e como ela o amava... E como tinham em comum... e o quanto viveram... e o quanto poderiam ter vivido... Vez em quando se perguntava se as coisas poderiam ter sido diferentes, e como seriam se tivessem sido... Teriam se casado? Nos amávamos tanto... O que aconteceu? Tido filhos? Adorávamos discutir o futuro... Criado uma vida juntos...? Nunca pensamos que fosse acabar, nunca, nunca... Mas acabou. Acabou... Não se sabe bem como ou porquê... simplesmente acabou. Bom... Fernandes deixou de lado o livro com a dedicatória... olhou para a esposa, sentada no sofá, vendo a novela. Amava-a, apesar de tudo... Olhou novamente o livro e riu, suave.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

divagações...

A gota que me cai na face arde... arde como o ar que me entra nos pulmões... Talvez seja o gelado da solidão desses meses... Não me suporto mais...

Se em cada segundo me passam vidas... em cada minuto, gerações... Se Deus me fez vivo pro infinito... só lhe peço, inferno cativo, que não me cumpras em eternidade...

A prisão nunca é perpétua, há sempre a morte-redenção. Pois se além da vida há a eternidade, que faço? Morro mil vezes até que se acabe... a transcendência do infinito é o fim.

E é nele que descanso.

Pois se sou só, não sou diferente de ninguém. A solidão não é em não estar com outros, mas em necessitar deles. Tão coletivamente isolados... Tão divinamente desgraçados...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma coisa interessante da dor;

Algo tão pessoal... tão absolutamente individual... mas que une toda a humanidade ao redor de uma mesma fogueira que possa acolhê-los...
Como a dor e o sofrimento, tão diferentes quanto há pessoas, podem ser tão absolutamente compreensíveis a todos?

Será a empatia?

Companheiros de Abismo e divagações

I


E do homem que morre e deixa a si... da mulher que faz sexo porque precisa (porque precisa...!)... do homem que chora o próprio lamento... da mulher que seduz a própria desgraça... do homem que corrói o próprio couro, com pregos de metal... da mulher que se esconde atrás de si mesma, alma tímida em escudo de carne... do homem que morre... da mulher que deixa de viver... de duas almas desgraçadas... de dois destinos destroçados... do céu estrelado... da lua amarela... da luz que os ilumina... da inevitabilidade de um abismo... um mesmo abismo... do assobio do vento... dos cabelos esvoaçantes... da ardência dos olhos... do duro... do sangue... do olhar... o mesmo olhar... do amparo cego... do mesmo olhar... do arrefecimento...


II


Se é no abismo que nos encontramos com nossa solidariedade, se é no abismo onde conseguimos, após tanto tempo na escuridão, apreciar com tanto furor o feixe de luz, o verde, vermelho, azul, após anos de cinza... Se é no abismo que, sozinhos, aprendemos a ser humanos...

É realmente?

Ser humano é ser sujeito antes de ser pessoa? É ser eu antes de ser nós? É sofrer antes de gozar? É não ter antes de ganhar?

É morrer antes de viver?


Ser... ou não ser... se esta dúvida é, para mim que nunca terminou Hamlet, quanto à própria finitude da vida, seria ela uma constatação ou um dilema? Sou ou não sou? ou Serei ou não serei? É uma dúvida perante a vida em si ou perante a morte? É a hesitação da própria existência ou a vontade do suicídio? Preciso ler Shakespeare...


III


Me pertence minha vida, afinal? Quem ou quê deu-me-a? Certamente não veio por espontânea vontade... devo crer que minha complexa existência se resume a um conjunto de reações químicas? De sistemas de causa e efeito biológicos? E qual seria o problema? Não creio que isto tiraria a beleza da vida em si... Tiraria? Se a vida é minha, o que é o Universo? O livre-arbítrio não existe, estamos sob suas leis... Não serei nunca mais poderoso que a gravidade, mais poderoso que o átomo ou que eu mesmo... Vivemos sob constante contradição. Se não somos parte do Universo, somos parte do quê? Se não somos Natureza, quê somos?! Haveria uma esfera de poder e possibilidades afora da Natureza que nos comportaria? Não, claro que não, ainda estamos sujeitos a todas as regras que definem o que achamos que nos é externo. Somos, então, externos a nós mesmos? Ou seríamos nós internos ao que nos é externo, ou seja, parte de um todo que não consideramos por sermos arrogantes e prepotentes demais? Aposto todas as minhas fichas nesta última. All-in! Mas ainda não compreendo. O que nos diferencia - certamente existe algo - do "resto"? Cultura, isto é! Não temos onças pintadas se comportando de maneiras diferentes, temos? Onças pintadas serão onças pintadas em qualquer lugar do mundo. Seres humanos, no entanto, diferem tanto quanto há possibilidades. Diversidade cultural. Se, naturalmente, somos homogêneos, entre nós somos completamente distintos... Estas distinções serão obra de um conjunto de relações químicas? Duvido... Teríamos que admitir que tal etnia seria quimicamente diferente de outra para tal... Sabemos que não é verdade. Seriam as condições geográficas? Talvez, mas não é difícil haver duas etnias completamente diferentes no mesmo lugar geográfico, enquanto uma outra mais longe pode ser mais parecida com uma das duas antes mencionadas. O que então? O que controla o mecanismo de reconhecimento de padrões que temos em nosso cérebro? O que cria deuses, mitos, ritos, ferramentas, comidas, elaborações? Será realmente apenas o cérebro? Mas o que o garante a individualidade? O que confere a cada ser uma personalidade? Serão apenas os genes? São perguntas que, até agora, as respostas dadas não me satisfizeram... Bom... Se alguém souber, pode me dizer...











sábado, 13 de outubro de 2012

Do voto facultativo num processo democrático

Cansado de ouvir - principalmente nessa época - de voto facultativo, deixo aqui meu protesto - que pode muito bem ser contestado, não se acanhe, invisível leitor.


Vivo repetindo que o voto facultativo é uma ferramenta elitista e oligárquica para a manutenção do status quo. Sim, sempre as mesmas palavras. Pois bem, aos que não me compreendem ou aos que não concordam ou aos que não tem nada a fazer - convenhamos, porque outro motivo alguém estaria lendo isso? - deixo aqui explicado meu ponto de vista.

Primeiro ponto: Democracia. Que ser democracia? O primeiro vai gritar "LIBERDADE!". O segundo "UMA MÁQUINA BURGUESA DE MANUTENÇÃO DO PODER". O terceiro "iu esse ei! iu esse ei!". Bom... darei primeiramente meu parecer, se não concorda, foda-se ponha sua opinião nos comentários. Democracia é, antes de mais nada, uma palavra. Palavras tem origem, o que os linguistas chamam de etimologia. Sendo assim, a origem, a etimologia da palavra democracia vem do grego "demos" que quer dizer "povo", ou algo parecido, e "kratos", que é poder. Aula de história do ensino médio a parte, vamos ao que interessa. Poder do povo. Esse conceito, oboviamente, surgiu na Grécia, mais precisamente na cidade-estado de Atenas, bem antes de Rousseau ou outros "iluminados". Claro que a democracia clássica grega era bem diferente do que temos agora, mas a essência - o poder do povo - continua. No entanto, o quanto esse povo realmente tem poder? Acho que é em cima deste questionamento que vieram as críticas à democracia por parte de (até hoje) conhecidos filósofos (Platão, Aristóteles e quem mais). Se a democracia é comandada pelo povo, enxergava-se o controle desse povo. A cidade, então, estaria "sujeita à ação de demagogos e oportunistas". Lindo. Apesar dessa crítica ainda ser válida, em certos aspectos, hoje em dia criticar a democracia é mais que tabu, é pecado capital com pena de linchamento até a morte. Mas então eu faço o seguinte questionamento.

Se o povo tem poder e este mesmo povo é controlado, então o poder é apenas virtual. Consequentemente, quem tem poder não é o povo, mas estes que o controlam. Podemos chamar este modelo, então, de "democracia", mantendo-se fiel às raízes etimológicas da palavra? Creio que não, para mim, isto se traduziria muito bem como uma oligarquia, onde poucos retém o poder e o povo é apenas massa de manobra política, para lá ou para cá. Massa de manobra. Massa. Me desagrada imensamente usar esta palavra, já que eu mesmo não sei se acredito na procedência deste conceito. Mas enfim... deixemos isto de lado por hora e vamos prosseguir.

O que é, então, democracia? Ao meu ver, existem alguns pontos fundamentais na formação do conceito de democracia.

1. Para começar, democracia, como já vimos, é o poder do povo. Não vou entrar em maiores redundâncias.

2. Em segundo lugar, é um Estado de direito, certo, mas também um Estado de deveres. Se o povo tem o poder, ele tem o direito e o dever de exercê-lo. Neste contexto, o voto obrigatório é não uma opção, mas uma obrigação - evidentemente - para o cumprimento do processo democrático.

3. Se o povo tem o poder, sua ausência destrói o processo democrático. Tem que haver PARTICIPAÇÃO POLÍTICA POPULAR, coisa que nos falta nos dias de hoje. Este terceiro ponto é importantíssimo, é ele que vai definir o que é, para mim, de fato um Estado democrático.


Então, se parto desses três princípios, vejo que, realmente, não vivemos em uma democracia. Não sei sequer se é a vontade do povo viver em uma democracia. Ao contrário, somos praticamente uma monarquia constitucional com alta rotatividade. O povo não tem o poder, se há legitimidade nas eleições, não há representatividade que substitua o povo em si, sua participação efetiva política. Enfim, boto meus sonhos esquizofrênicos de lado e vamos à realidade das coisas como elas são. O povo não vai participar da política nem tão cedo. Não vou me aprofundar nisso, o leitor sabe muito bem que a maior parte da população já faz milagre ao conseguir respirar entre trabalho, trânsito e família. Não vai participar, assim, como deveria, principalmente por falta de tempo. Tenho minhas dúvidas quanto ao mito da falta de interesse do povo por política.

Mas então, sendo realista, vimos nesta, como em muitas outras eleições, a compra de votos. Nesta eles inovaram, colocando uma microcâmera em um chaveiro para provar que votou no candidato X. Gostaria de saber, primeiramente, o que faz os defensores do voto facultativo pensarem que a compra de votos pararia. É muito fácil, com a máquina que existe hoje, deixar o povo de fora da política, comprar os votos necessários para se ganhar uma eleição. Mas tudo bem, vamos supôr que isto não ocorra, vamos supor que, conforme o delírio popular (não se ofenda, inexistente leitor, tenho meus delírios também), apenas os interessados em política - os que realmente se preocupam - votariam. Vamos supôr ainda, avançando mais na esquizofrenia aguda, que todos eles pensem no bem comum. Pergunto: isto não caracteriza uma oligarquia? Se apenas a Zona Sul do Rio votasse, Freixo iria para o segundo turno? Muito provavelmente. No entanto, esta seria uma decisão válida? Seria uma decisão legítima dentro de uma democracia? Ah... por mais que tentemos, por mais que insistamos, sempre aparecerá aquele caráter elitista em nossas palavras. Vale o elitismo por um "bem comum"? Em todo caso, sabemos que, esquizofrenias a parte, as pessoas não votam no bem comum e, caso realmente não houvesse votos comprados, caso realmente o mito do desinteresse por política  por parte da massa - maldita palavra - seja real, a eleição apenas adensaria o abismo da desigualdade e, caso não, não haveria legitimidade alguma, seríamos apenas eles e nós, a massa - agora sim manipulada - e a elite - esta que comanda as direções da nação -, mesmo que seja uma "elite intelectual" e não propriamente econômica - mas afinal, não estão ligados os dois? Em qualquer um dos casos, apenas se acentuaria a ideia de cidade partida, de país partido, entre os que votam e os que não votam. Ademais, acentuo, é muito fácil manter a falta de interesse - alienação, que seja - pela política, e é justamente esta falta de interesse que destrói o processo democrático tal como minha esquizofrenia deseja que ele seja. E é justamente esta falta de interesse que é criticada e ao mesmo tempo subliminarmente elogiada pelos partidários do voto facultativo. Pois, se não houve segundo turno, é óbvio que quem votou para isso ou teve os votos comprados ou não teve interesse político.


Sobre o voto obrigatório, eu repito o que eu já disse: participação política é uma obrigação, não apenas um direito, em um regime democrático. Se não há, porque não há como, participação efetiva, que seja então, pelo menos, pelo voto.

Talvez minha mais aguda crise esquizofrênica seja em relação ao povo. Creio piamente no povo, o povo em geral, a consciência coletiva, popular, enfim... Tenho uma certa ideia que sei, é muito provavelmente errada, mas que insiste em grudar em mim: o povo, independente de qualquer coisa, não é idiota. Sabe, portanto, quando está na merda - pois vive, não é alienado à realidade, como muitos tentam colocar. Sabe quando está melhor. Claro que fiquei irritadíssimo com o resultado das eleições no Rio, mas logo fiquei mais satisfeito. Pois sei que se para mim Marcelo Freixo deveria não só ter ido pro segundo turno, mas ganhado a eleição, sei também que não sou o único ponto de vista válido. Há aqueles que votaram no Paes por medo, por propaganda ou por venderem seus votos, mas tenho certeza que muita gente - infelizmente para mim e meus companheiros de ideologia - votou porque sentiu a melhora - que, convenhamos, de fato ocorreu, até porque né... E eu não poderia nunca ir contra a vontade da maioria.

Quando fala Maquiavel sobre a instalação de novas instituições, ele diz que é o mais difícil trabalho do Príncipe, isto porquê "aquele que se dedica a tal empreendimento tem por inimigos todos quanto se beneficiavam das instituições antigas, e só acha tíbios defensores naqueles para quem seriam úteis as novas", e complementa Jean-Jacques Chevallier: "Tíbios, porque têm medo dos primeiros: tíbios porque são, como todos os homens, incrédulos e porque não puderam convencer-se, pela experiência, da excelência das coisas novas". Sendo assim, me contento, pois, resumindo, temos medo da mudança e do que é novo. E, se Freixo, sugirndo como algo absolutamente novo, conseguiu cerca de 30% dos votos, é porque sim, estamos progredindo, pelo menos na minha visão de progresso. Estamos, lentamente, abraçando aquilo que representa mudança. Este evento é progressivo e constante, a mudança de mentalidade nunca pára, está sempre assimilando tudo ao seu redor, não somos quadros eleitorais, somos seres dinâmicos e assim é nossa sociedade. Sobretudo, é um evento coletivo, algo que muito provavelmente não ocorreria da mesma forma caso o voto fosse facultativo.

Exemplificando: Nas eleições passadas para o Congresso americano, menos da metade da população conseguiu botar uma maioria republicana na Casa Branca. Como podemos chamar isso de soberania do povo?

Bom, é isso... eu não estou com saco de reler tudo, se eu tiver esquecido de algo, cometido alguma redundância ou enfim... depois eu conserto. Deixe sua opinião se quiser, se é que alguém realmente vai ler esta bosta.












Journey

Para começar, Journey é um jogo - maravilhoso, por sinal - de playstation 3. Minúsculo, deve levar uma hora e meia pra terminar se você for lerdo como eu sou. Enfim... Conta a história muda de um viajante - você - que vai em direção a uma montanha. Em seu caminho você por vezes encontrará outros viajantes. A princípio eu pensei que fazia parte da história, tratei de pegar os itens antes que o outro pudesse. De certa forma faz... É, no entanto, outra pessoa que está jogando. A ideia é justamente a de companheiros para a jornada. Não se trava uma jornada sozinho e o jogo insiste nisso desde seu conceito. Journey é lindo, tanto visualmente quanto de conteúdo. A ideia, segundo os desenvolvedores, é criar um laço entre as pessoas, fazer com que elas se importem umas com as outras através do jogo, mostrar "o lado positivo da humanidade". De certa forma dá certo. Quando percebi que se tratava de uma pessoa e não de um programa, minha atitude mudou completamente, ajudar e tentar se comunicar da melhor forma com o companheiro de viagem é praticamente obrigatório no jogo. Não há comunicação efetiva, e essa era a ideia. Não há nomes - até acabar o jogo - e isso também faz parte do jogo. Os desenvolvedores dizem que retiraram, deixaram só o cru - do jogo e dos jogadores - para que os preconceitos não ficassem entre os jogadores. Bom... claro que não vou dizer nunca que um jogo consegue sequer chegar perto do contato real tete-a-tete. Mas devo admitir que, em um mundo onde as relações estão cada vez mais afastadas e as pessoas cada vez mais individualistas e isoladas, Journey é um jogo interessante, com uma proposta interessante e que vale muito a pena ser abraçada - tanto dentro quanto fora do video game. Se tem uma coisa que é absolutamente verdade nesse mundo - e o jogo mostra bem isso - é que nossa jornada, seja qual for, nunca será solitária.