segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Negação





Sua expressão compenetrada, anfíbia, mergulhando em secas águas, gélidas de outros planetas e nos trazendo (pelos dedos de artista) à terra a luz. formas transbordantes nos envolvem em ternos abraços, tenros enlaces. trêmulos suspiros, tensos olhares... posso apenas imaginar. "triste despedida da tosca memória"... é o que me diria caso me trouxesse algo. fique você com seus olhares, seus cabelos, suas verdades. fico com minha tosca memória.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saudades de Itapuã





   A Bahia é, por assim dizer, uma lembrança herdada. Nunca conheci as coisas maravilhosas que me foram passadas pelo meu pai. Nunca sentei à margem da Lagoa de Itapuã, à luz de velas apenas, com dezenas de outras famílias, para ouvir Dorival. Nunca vivi Salvador criança, corri e brinquei por suas ruas nem nada disso... Mas lembro de ter lacrimejado com o pesar no rosto do meu pai quando fomos ao Abaeté na nossa última visita à Salvador. Ficou um tempo parado, sem falar nada, até deixar escapar um "como tá diferente", ou algo assim... 
   Pesa. 
   É extremamente pesado o fardo que carrega quem viveu em tempos melhores, tempos mais bonitos. Pesa e rola em formato de lágrima ou estrangula em forma de agonia. A tristeza é das coisas mais profundas, mais ainda é a tristeza pelas coisas belas, aquelas perdidas e nunca reencontradas, aquelas da memória. 
   Sinto saudades da Bahia como se fosse meu pai, sinto saudades de Itapuã, do Abaeté e de Caymmi...



segunda-feira, 1 de julho de 2013

O estupro deve ser a forma mais dolorosa de violência. Não é só pela dor física que causa, não é só pelo sentimento de violação. É pela impotência inerente ao estupro. O arranhar e debater que nada adiantam. O gritar e ninguém ouvir. A total inutilidade de todos os atos, de todas as ações.

Nos estupram.

Diariamente.

Ter consciência da própria impotência perante o estupro diário é a vivência constante da frustração e da violação, da violência... Assim seguimos agora, estuprados e impotentes...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Porquê a corrupção não é a questão?

Muito se fala dessa história de corrupção, desde um bom tempo atrás. Talvez tudo tenha começado com o mensalão, não posso afirmar nada. A questão é que durante o governo Lula, cresceu-se uma certa insatisfação dentro, principalmente, de uma classe média que se considera achatada politicamente. Pois não quero discutir classe média. Quero que se foda isso. Quer discutir o porquê de eu achar - como sempre achei - a corrupção, enquanto objeto, foco, de marchas, protestos e o caralho para a mudança política, uma coisa... inválida, se tanto. Muitas pessoas que já tiveram a oportunidade de bater esse papo comigo vão achar as palavras repetitivas. São! Estou escrevendo isso porque eu, na minha ingenuidade de jardim de infância, acredito que tenha surgido um espaço incrível e único com essas manifestações em que o diálogo se tornou algo muito mais fluido e fácil, em especial de assuntos políticos. Espero conseguir dialogar com o maior número de pessoas e ajudar a construir cabeças, construindo a minha própria no processo... Enfim.. vamos à bagaça;

Corrupção é uma pauta moralista 
Pergunta-se "o que é corrupção?" e a resposta será uma confusão absurda que não nos leva a lugar nenhum. Há de se pensar então o que é o contrário de corrupção e, claro, chegamos à conclusão lógica de que é "pureza". A própria questão da pureza se torna uma questão moralista e cristã. Ora, ninguém é puro, logo, todos são corruptos... Mas e o protesto contra a corrupção?  Minha colega disse que é nas pequenas coisas que se começa. Esse que vos escreve, sim, este mesmo aqui, cometeu o crime hediondo de furar a fila quilométrica de um certo megashow. Praticamente um assassino. Não, não podemos levantar a bandeira da corrupção por suas questões moralistas... como já vi escrito em muito canto: que é errado ser "corrupto", todo mundo sabe. Mas isso não é pauta política. Se torna sim para uma classe que se acha "pura", no mais vil dos sentidos, e que carrega a moral e os bons costumes como bandeira. Mas sabemos quem essa galera é, né?


 Corrupção é algo que está no maior nível de superficialidade de uma questão. Isso nos leva ao próximo tópico.

Corrupção é extremamente superficial; inibe o senso crítico 
Quando pensamos em corrupção enquanto problema, não conseguimos abordar nenhuma dimensão do... real problema. A questão é que se a "corrupção" é um valor abstrato, qualificado baseando-se em valores e na moral cristã, ela se torna uma denominação artificial que é o suficiente e que esconde, portanto, as dimensões da realidade além da própria aparência. Isso posto que tal pessoa fez tal coisa porque é corrupta. Fim. A corrupção é a própria justificativa; ela é a característica do corrupto. Isso impede que se faça uma análise crítica do que de fato acontece nas mais diversas situações. A corrupção, enquanto causa política, nos blinda para uma reflexão mais profunda, que vai além do "corrompido". Não se pode resumir a história do mensalão, por exemplo, que a "galera anti-corrupção" adora evocar, a questão da corrupção. De fato, não se pode falar de mensalão sem se falar da própria estrutura política do Brasil e de suas falhas. Não se pode falar de mensalão e atribuir a questão ao Lula ou ao PT, isso é de um reducionismo grotesco da realidade. Mas ocorre, já vi, você já viu, leitor, e talvez o tenha feito, e a corrupção é usada aí justamente como o tapa-rolha da discussão e da reflexão. Ela basta. Só que NÃO BASTA. Há que refletir profundamente sobre o que estamos insatisfeitos e há que ter uma opinião além da superficialidade das coisas. Não se faz política mudando agentes de poder, mas alterando a própria estrutura das relações de poder e isso não faremos nunca enquanto evocarmos a corrupção como grande mal que assola o Brasil e ponto. Não há ficha limpa que faça o trabalho de um povo com senso crítico e questionador.

Por fim, a corrupção enquanto pauta daqueles que, eu acredito piamente, estão querendo de fato um outro Brasil
Esse é o motivo de eu escrever esse texto. Não acho, como alguns colegas acham, que a classe média que se ergue contra a corrupção seja uma classe média reacionária, conservadora, cabeça dura. Acho que essas pessoas de fato estão querendo um outro Brasil. Elas vão às ruas por um motivo! Não aguentam mais essa merda toda! Há que ficar puto mesmo! Há que bradar palavras de ordem! Mas também há que sair da sua zona de conforto, geográfica e intelectual, e ousar, conhecer o Brasil que se quer mudar e, mais importante que tudo, conhecer o Brasil que se quer. Isso, eu acredito, fazemos coletivamente, numa construção de diferentes pessoas, diferentes posicionamentos, porque assim é a sociedade e assim deve ser mesmo! Mas é preciso o diálogo, sempre, a discussão, sempre, sempre... enfim... coloquei essas coisas na mesa... se de fato alguém ler e discordar, sinta-se livre para comentar... é por isso que estamos aqui...



terça-feira, 28 de maio de 2013

Posto que o doce, amargo;
medo suado,
frio
perco o controle
grito
o ritmo agitado
nosso amor profano e sagrado
alagado
incendiado
regurgitado
tão errado... tão... tão errado...

Posto que a vida, terrena;
tão frágil, tão... pequena
posto que a morte é plena
e que Deus condena
o sorriso que faz valer a pena...
o nosso amor profano e sagrado
alagado
incendiado
regurgitado
tudo tão exato... tudo tão...

Não sei mais o que eu sou
tudo que eu fiz, tudo o que chorou
o que foi lavado pelas lágrimas
e o que foi levado...
mas o nosso amor profano e sagrado
alagado
incendiado
regurgitado
faz tudo tão... tão gozado.
RIP



"Sem querer morri sem querer viver"

domingo, 26 de maio de 2013

bodas

aqueles vinhos velhos, azedos de passado, que superava o amargo seco do "desejo" esperado. seco, sexo, mérdio; cansado; já passado, já meio morto... meio ordinário... meio dorzinha; incômoda dorzinha de ser seco, seco demais. mas veio azedo e aí, meu filho, já era. azedo não dá, azedo é o cospe-fora/joga na pia. o morde e assopra sangrou e ardeu e, bom, passadou. vou buscar aquele francês, aquele sim de qualidade, aquele francês da minha aula de pintura.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

De tanto olhar, cegou... Não entendia bem... sempre haviam lhe dito que quanto mais estimulasse alguma coisa, mais desenvolvida ela ficaria. Teria alcançado o limite da visão? Aquele frágil limite entre o ver perfeito e o não ver nada? Teria alcançado o cume apenas para despencar no abismo do outro lado? Não entendia bem... Logo ela, que sempre se esforçara tanto para enxergar bem, enxergar além de qualquer variável, obstáculo, enxergar qualquer possibilidade ou alternativa... Logo ela, porque logo ela? Porque não sua colega que, meio míope, se jogava nas coisas sem dó nem piedade de si mesma? Não, mas tinha que ser ela? Chorava como que esperando que as lágrimas, as suas puras e salgadas lágrimas fossem curar sua cegueira. Desistiu de insistir na ideia em não tanto tempo... Não houve escolha, na verdade... Secara... Secara como cegara, como fora, fora da escuridão, de visão perfeita. Assim, de repente. E de repente passou a tatear... Pela primeira vez tocava aquilo que fazia seu caminho. Pela primeira vez sentia o áspero poroso do cimento em contato com suas frágeis mãos, seus frágeis dedos, sua frágil unha. Quebrou a unha! Pela primeira vez sentia a dor! Ah, a dor! Que desagradável mas... de alguma forma... estranho... novo... latejante... prazeroso. Movia-se como uma lesma, sentido cada espaço entre o onde estava e o onde devia chegar. Sentia com o prazer de uma lesma; de um leproso a se coçar. A cada coçada arrancando-se um naco de carne morta. Sentia e ralava-se, o vermelho - mas ela não poderia saber disso - do sangue a marcar seu caminho torto de prazer. Ardia quente e bom, as pedrinhas soltas de cimento grudando em sua carne exposta e expondo seu corpo com dedicação. Movendo a dor de lugar e deixando a ardência arder. Sentia-se pela primeira vez e era indescritível. Doía-se pela primeira vez e era indescritível. Ardeu doído até não arder mais e morrer naquele estado anestésico, mas inebriante da dor;
Nunca mais veria. Enxergava isso.

terça-feira, 14 de maio de 2013

coração hesitante, martelando duro em golpes incertos. quebra as pernas, tira o ar, mata a fome. dá sede.

domingo, 12 de maio de 2013

Angústia se mistura a tédio no maremoto de marasmo que me avassala. Tudo perde o interesse e até dói ser...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre o que não é arte


A questão mesma de problematizar a definição de arte não é afirmar que esta (a definição) não existe. Pelo contrário, trata-se de considerá-la algo extremamente complicado e abstrato, para não dizer subjetivo, o que sim, dificulta e muito o processo de estabelecê-la. Existem tantas definições de arte quanto quadros fora de museus e não digo que há uma que seja definitiva, por mais incoerente que possa parecer. Também não digo que haja alguma errada nem que todas estão certas. De fato, não digo nada, até porque não cabe a mim (um oh tão simplório e medíocre apreciador) fazê-lo. Não, o que eu digo é que uma definição existe, mesmo que ela seja plural, e que arte, com a maior certeza do mundo, não é "tudo". Veremos o porquê.

Pra começar, entendemos arte como uma coisa, uma vez que a denominamos e, mais importante, a percebemos. Se arte é uma coisa, ela mais que é, ela não é o que ela não é, ou seja ela não não é. Taí uma definição pra você: arte é tudo aquilo que não não é arte. Vaga, né? Ora, o que você esperava? Enfim... prosseguindo... se entendemos arte como uma coisa, ela se define por si mesma. Por mais que coisas transbordem (mas não vou por aí, não se preocupem... mas pros curiosos: uma coisa que transborda é quando ela passa de seus limites físicos e altera a realidade ao seu redor. De forma simplificada é isso), elas se limitam conceitualmente, se não de forma física, autônoma, ao menos em nossas apreensões conscientes (de consciência... do que é... cada coisa). Isto permite que diferenciemos uma banana de uma maçã ou de uma cebola. Certamente nem tudo é fruta e entendemos isso, nem tudo é doce também, e nem tudo é preto. O que nos permite diferenciar e conceituar cada coisa é nossa capacidade cognitiva. Percebemos a realidade de tal maneira que destacamos dela as coisas e as classificamos, de acordo com a percepção e/ou o conhecimento por nós adquirido. Digo "e/ou" porque não classificamos formas mais complexas sem estudo ou conhecimento, mas não precisamos de nada além da experiência para saber se algo é doce ou não, por exemplo. O próprio conhecimento pode ser uma forma classificatória autônoma, eu creio, uma vez que ele próprio se ramifica constantemente, mesmo sendo completamente abstrato. A matemática não tem diversas áreas? Ok, talvez o exemplo não proceda (não sei nada de matemática), mas vocês entenderam a ideia... Bom... chamamos algo de arte, então, porque, simplesmente, percebemos, por experiência ou conhecimento ou ambos, algo a que chamamos de arte. Agora, isso (o que chamamos de arte) pode variar (e varia), mas não importa, vamos apenas guardar que existe.

"Arte é tudo!"

Arte não pode ser tudo pelo simples motivo de ser algo percebido. Conceitos absolutos não são percebidos porque não há nada para contrastá-los. Assim, sabemos que algo é vermelho porque existem outras cores, que algo é doce porque existe o não-doce... Mesmo quando pensamos em termos mais... macroscópicos... a vida por exemplo, alguém poderia dizer que ela é tudo e mesmo assim é conceituada. Pois bem, só conseguimos pensar a vida pois há ausência de vida, isto é, a morte. A não vida é o que dá vida à vida. Ironias podem ser tão belas, não acha, leitor? (Sim, eu sei que mudo do singular pro plural o tempo todo...)

Quer dizer, percebemos que algo é xis porque existe tudo aquilo que não é xis, sabemos, então que o que é xis é tudo aquilo que não não é xis. Logo, se arte é uma coisa, ela não pode ser tudo, pois isso significaria que ela não é nada e, portanto, ou não seria experimentada ou seria experimentada com uma constância tão contínua que sua perceptibilidade seria nula. Arte é, então alguma coisa.

"Mas a arte sendo subjetiva e tal e tal pode ser uma penca de coisas pra cada um e, então, virtualmente ser tudo!"

Sim e não... a arte pode, em seu somatório geral, ser tudo, assim como tudo pode ser fruta, se alguém assim classificar. Isso vale pra qualquer conceito. Não é, no entanto, algo válido, porque além da experiência, a noção de arte é construída através do conhecimento e existem certos parâmetros para se dizer o que é arte e o que não é. Parâmetros estes que vêm sendo desafiados, quebrados, modificados, ampliados e por vezes reduzidos constantemente ao longo de, talvez, sempre, mas que existem. E que servem de modelo para a definição pessoal e subjetiva de cada um. Por exemplo, dificilmente se ouvirá dizer que um quadro de Rafael não é uma obra de arte, por exemplo. Ou uma música de Beethoven. Estou apelando aos clássicos porque eles tem mais apelo... de um modo geral, o que é erudito, é mais aceito dentro dos tais parâmetros... pelo menos é o que me parece. Enfim... Este parâmetros, que muitos consideram como elementos castradores e limitantes, para mim, são o que impedem as pessoas de botarem um escritor meia-boca de blogs no mesmo nível de um Rimbaud ou um Machado (por favor, não vamos nem começar a falar sobre poesia, que, na minha opinião é algo além da arte). Acho-os valiosíssimos (embora preze pelo seu dinamismo - que é inerente a tudo aquilo que é humano). E, claro, algumas pessoas dirão que são (ainda nos parâmetros) uma construção e bla... Pois digo que a própria arte e a própria percepção artística também são, de certa forma, construções. Posto que uma incrível obra que mobilize multidões pode não dizer nada para outra pessoa ou outra cultura. Ainda assim, cada um tem seu conjunto de parâmetros e, mais importante, nunca para uma pessoa ou uma nação, arte será "tudo". Porque quando isso acontecer, significará que ela está morta.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

o que vem da academia, será para a academia


a antropologia à academia
enquanto eu, o antro 
enquanto antro, propriamente dito
não tenho nada
                        [nada
a ver com isso

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Clarice

Por meio de vossos muito bem apresentáveis atributos, pude conceber um universo inteiramente inédito. A saber, o da vida não me apresentada antes de vossa vinda. Se tenso foi, igualmente prazeroso e se infame, discreto, mas nunca não foi doce, nem por um momento. Se por vezes doía, talvez em algum ponto na consciência, era no mundo dos olhos arregalados mas cerrados, sempre virados e vidrados, onde estava. E lá não há consciência, inconsciência, sub-ou-super-qualquer-coisa-mais, é só o que há e é e sendo. Molhado, despeço-me do puro estado de anestesia da alma, da leveza dos movimentos duros e sou jogado às dores no calcanhar, ao ranger dos joelhos e às golfadas sem ar... Distante, me perco; Por perto, me frustro. Quero ir para longe mais uma vez.

Para você, mais experiente em tantos os meios e sentidos, se tornou recorrente perder-se. Pois leve-me novamente, quero perder-me contigo para sempre, até que nossos corpos se apodreçam da fome e da sede insensíveis aos que vivem de amor.

Para minha eterna musa,
Obrigado

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Com amor (que nunca deixou de existir), para Josefina

Vejo 
através dos véus, eu vejo
através do branco, eu vejo
através das maçãs, eu vejo
do vermelho, eu vejo
da tensão eu vejo
do prazer eu vejo
de todos os meses, eu vejo
de todos os panos, eu vejo
de tantos anos...

Vejo
através dos olhares,
dos cheiros,
das ligações,
das tardes,
das discussões,
das brigas,
dos falsos perdões,
do sofá...
das lágrimas...
dos papéis...

Vejo
através das tvs, vejo...
através da insônia, vejo
através das pílulas,
através das crises,
através das dores de cabeça,
dos soluços,
dos punhos,
da raiva,
do receio,
da perda,
do arrependimento,
do tapete...
da gaveta...
do cano...
preto...

vejo 
a mim...
e você...
através da vida...
e da morte.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ah, a faculdade...

Final que eu queria pôr


Se Durkheim busca entender a sociedade moderna com base na divisão do trabalho, Marx o faz com base na economia. Weber (que, mesmo não incluindo no trabalho, vale a pena mencionar), por sua vez, com seu "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", demonstra que grandes mudanças estruturais podem vir da religião, inclusive mudanças na economia, e aposta na racionalidade como grande passo para a sociedade moderna. Talvez o Mercado Popular da Uruguaiana seja uma situação muito específica para compará-lo à sociedade (em sua forma meio-que-metafísica) e tenho certeza que minha estadia lá está muito longe de ser sequer imaginavelmente longa o suficiente para se supor qualquer coisa, mas o pouco que eu vislumbrei não correspondia realmente a nenhuma das propostas. Por mais que achemos ou nos forcemos a achar certas confluências entre teoria e realidade, o cru da questão é que não estamos tratando de proletariados (que nome terrivelmente genérico!) ou donos dos meios de produção ou de indivíduos com tarefas específicas e nem de processos de racionalização e ação social... não... estamos tratando de pessoas de carne e osso, com seus sonhos, desejos, ambições, frustrações e sofrimentos. Pessoas como eu e o Sr. E são elas que formam a sociedade, não importa qual seja, com suas dinâmicas muito pessoais. E são essas pessoas que deveriam estar no centro do estudo sociológico e não dentro de sua caixa de ferramentas. 

Final que acabei pondo...

Se Durkheim busca entender a sociedade moderna com base na divisão do trabalho, Marx o faz com base na economia. Possuem, portanto, pontos de vista extremamente diferentes sobre a sociedade. Para Durkheim, a sociedade é estática, quer dizer, tende ao equilíbrio, enquanto Marx enxerga os conflitos e, através de sua perspectiva histórica, constrói uma dinâmica dialética de cooperação e conflito entre homens. Claro que nenhum deles viveu o mundo de hoje e muito menos teve a chance de entrar no Mercado Popular da Uruguaiana, mas suas teorias vivem firmes e cá estou eu, tentando aplicá-las no Camelódromo, o que demonstra o quão recente ainda podem ser.

quarta-feira, 13 de março de 2013

I


'"Alguém recentemente postou por essas bandas facebookianas a definição de humildade, achei interessantíssimo e vou postar eu mesmo

humildade
hu.mil.da.de
sf (lat humilitate)
1 Virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza.
2 Modéstia.
3 Pobreza.
4 Demonstração de respeito, de submissão.
5 Inferioridade.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=humildade

Eu sei, como se ninguém soubesse o que é humildade... ainda mais alguém tendo postado isso por aqui recentemente.

Enfim... Complemento aqui com isso

fragilidade
fra.gi.li.da.de
sf (lat fragilitate)
1 Qualidade de frágil.
2 Fraqueza.
3 Delicadeza.

Cair é humilde, uma vez que demonstra a fragilidade, a fraqueza. Cair é ser rebaixado e, ao mesmo tempo, existe uma sociedade que glorifica tal atitude... Diabolicamente contraditório... Ser humilde é bom, mas também é digno de pena. O contrassenso das virtudes..."

II

Há na cadência certa doçura que nos incita à ajuda...
Esteja esta doçura na humildade (e fragilidade, por conseguinte) própria do ato de cair
Esteja ela em nós, no medo que transpassa o corpo ao refletir sua própria imagem caindo (hã?) => temos medo de cair (ah!)
De qualquer forma, é doce o amargor da cadência, assim como é amarga a fragilidade da doçura...
Que seja doce, então, mas que não (não?) caia.
Que caia então, mas que seja amargo.
As impregnações dos contrastantes evitam o próprio contraste! É como se sombra e objeto coexistissem no mesmo corpo, como se luz encontrasse a escuridão numa simbiose suicida, mas que não poderia ser (enquanto existir no mundo) de forma diferente...
É uma paixão apática, um furor indolente, uma fantasia pé-no-chão...
E assim se vive (...)

III

A grande antítese do maniqueísmo é a monotonia! Quando os contrastantes se encontram num processo de anulação; ácido e base viram água e tudo e nada viram...
?
Seu remédio: a Vida! 
A vida em suas infinitas nuances (que poder traz!), infinitas possibilidades, infinitas cores e tons e melodias e...
Ela dá contraste ao entendimento, não por meio de contrastantes, mas da infinitude de sentidos que podem tomar seus personagens. Não se opõem (de forma a formar vários, numa existência fragmentada e em conflito), nem se complementam (formando um, numa existência monótona), mas coexistem, todos em uma realidade, em infinitas camadas de complexidade que variarão pelo personagem e pela significação dada a ele e por ele.
A vida é um quadro dinâmico e em expansão, de infinitos traços, cores e observadores, estes que também fazem parte do próprio quadro.
A vida é um infinito em si mesmo, é a ação contemplativa da própria existência enquanto realidade. Na medida em que se age, se contempla e vice-versa, assim como na medida em que se existe, se vive (e a recíproca é verdadeira). 
E assim se vive(ndo)...

OBS para moi: A Natureza é a vida enquanto material tangível e não tangível, a vida tomando corpo e a consciência é a vida tomando mente enquanto parte da própria vida. (a desenvolver futuramente...)

Poema Nº 59, Versículo 7, Parágrafo 8º ou O Cotidiano Expresso de Forma Não Muito Clara Por Alguém Que Não Sabe Muito o Que Significa Cotidiano ou ainda (!) Há Dor


a dor é sintoma do tiro
o tiro é quadro da violência
a violência é o câncer da alma
a alma é a vernissage do eu
o eu é o lar do mundo
o mundo é causa da dor

a pré-paração que nos faz frear
é a pré-rendição ao tempo
a morte é a inércia,
a sede e a pressa
de um corpo ao relento

a dor

de viver

à dor

ador..

ador

de viver

a dor

ardor

segunda-feira, 11 de março de 2013

Bom... achei que tava na hora de mudar essa cleanagem toda... não mudei muita coisa, apenas botei um atrator de Lorenz no fundo, vocês devem reconhecer a parada do gráfico de demonstração do efeito borboleta... agora, sem entrar em detalhes, foi aqui que eu peguei a imagem http://www.stsci.edu/~lbradley/seminar/attractors.html

também botei a opção de visualizarem minha falta de seguidores... pra que eu não sei, na verdade... abreijos a todos

post fofis (ou Gestação)

Nove meses... foi o tempo que (já!) se passou. E agora, novamente, nove meses depois, cá estamos...
a chuva nos encharcando;
meus pés sentindo a calçada;
aquele beijo molhado - que romântico seria, lembra?
e foi;
e é...;
o vento nos juntando;
você e eu:
aquele rapaz desajeitado;
que continua desajeitado...
Nove meses... o tempo da nossa gestação...
de nossos desejos, de nossos planos, de nosso amor...
Nove meses... se me dissessem nove dias ou nove séculos, tanto faz.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Divagações


A vida é o universo pulsante

A morte é parte da vida, não é exterior a ela e muito menos é seu oposto. -> a morte deriva da vida ou é parte inerente dela?

A manifestação quanto à vida é possível? Pois a manifestação em si já é vida.

O universo pulsante não existe, a vida sim. A vida é o universo pulsante e a relação não é recíproca. Isto por que a vida é e sempre será prioritária em qualquer relação. Ex: A vida é um bocejo. A vida é uma árvore. A vida é uma estrela. Qualquer coisa que represente algo será vida, exceto se estiver isolada ao ponto de não se relacionar com absolutamente nada, nem ela mesma. Neste caso será Deus. A vida, como prioritária ao complexo sistema de relações se coloca acima de todas as coisas. A vida é, portanto Deus. No entanto, a vida não pode ser uma entidade, visto que por mais que prioritária, não pode representar a si mesma, ou seja, se enclausurar, se embarreirar, para começar porque as barreiras fariam parte da própria vida e, depois, pois sua extensão é tal que conceber seu fim é dar-lhe sobrevida. Entender algo fora da vida, isto é, do prioritário ao universo pulsante é simplesmente contraditório com a própria noção de prioridade sobre tudo. Não há externalidades e, portanto, não há entidade. A vida é, então, Deus em sua não-forma solta, inisolável (sim, estamos criando neologismos aqui, ou seja dando vida às palavras, ainda mais além, dando prioridade de existência a elas), mas irrelacionável pois não há com o que se relacionar.

Ok... resta a questão da morte enquanto parte constituinte da noção solta de vida ou derivada dela. Não se pode conceber a morte como "tudo que é externo à vida", para começar pelo simples fato de entendermos a morte, e, além disso, pela evidência óbvia do imenso - IMENSO - impacto que a morte tem sobre a vida. Se apenas considerarmos nós, seres humanos isolados conceitualmente para fins "metodológicos", acho que isso fica muito mais que claro. Não é concebível, portanto, que a morte se abstraia da vida. É, no entanto, parte constituinte fundamental da experiência de vida - tudo morre, cedo ou tarde, de animais e plantas, a estrelas e, provavelmente, átomos e as partículas mais elementares da constituição da realidade. É desta experiência de vida que decorre nossa morte, isto é, morremos porque vivemos ou morremos apesar de vivermos, sendo a morte uma face da vida? Talvez ambas as opções estejam erradas, posto que a vida não permite a ausência e a morte seja parte da experiência de viver (se constituinte ou decorrente dela, já não importa) e a morte não exista, portanto, enquanto ausência, concluo que a vida só pode ser absoluta e a morte efetiva - enquanto destituição de vida  (ou seja, perde sua capacidade de influenciar, perde sua relevância, sua característica a priori enquanto algo existente) - não pode existir, já que a vida é e será sempre relevante.

De uma forma mais resumida, posso falar, mais especificamente, que nenhum ser (e encaro ser aqui como qualquer coisa dentro do universo pulsante, qualquer coisa que tenha vida a priori, que seria "tudo", na verdade) deixa ter relevância em momento algum.

Sua presença enquanto vivo é o suficiente para deixar uma marca efetiva nos fluxos que subjazem a vida.